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"Lembra-te deles, os quase loucos de sofrimento, e trabalha para que a Doutrina Espírita lhes estenda socorro oportuno. Para isso, estudemos Allan Kardec, ao clarão da mensagem de Jesus Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade – a caridade da sua própria divulgação".

Trecho retirado do livro Estude e Viva – FEB 9ª edição, cap. 40. Chico Xavier/Waldo Vieira. Pelos espíritos Emmanuel/André Luiz.

Campanha Segunda Sem Carne

sábado, 24 de setembro de 2011

O direito e o dever de nos assumirmos espíritas

 por Dora Incontri
publicado em 21/09/11 no site Pedagodia Espírita-ABPE

Kardec, na visão do artista Monvoisin.
 
Em contato com várias entidades assistenciais, editoriais, das áreas de saúde e educação, cujas origens e fundamentos foram espíritas, observamos uma tendência crescente e um discurso repetido para se retirar o nome espírita. Nós mesmos, na ABPE, já recebemos diversas sugestões externas e internas para abandonarmos o termo “pedagogia espírita”, que foi criado por José Herculano Pires na década de 60.

Por que essa tendência? Que motivações se escondem atrás delas? Por que não podemos concordar com isso?

Se considerássemos o Espiritismo como meramente religioso – coisa que todos sabem é o oposto do que pensamos – ainda assim defenderíamos o direito e o dever de assumirmos a nossa identidade espírita como indivíduos, como instituições, em projetos sociais e pedagógicos. Ora, não há centenas de excelentes hospitais dirigidos por religiosos católicos? Dezenas de PUCs, outras tantas universidades protestantes de renome, inúmeros trabalhos sociais respeitados e reconhecidos internacionalmente, fundados e dirigidos por religiosos, como Madre Teresa de Calcutá ou Irmã Dulce? As pastorais da criança e do idoso recebem menos reconhecimento em seu magnífico trabalho, por estarem ligadas à Igreja?

Nunca ouvi ninguém fazer uma crítica ao Dalai Lama, por se apresentar como monge budista. Suas luminosas opiniões não são ouvidas? Não é respeitado por órgãos internacionais e recebido pelas maiores personalidades do planeta? Um Gandhi, que exerceu e propôs como ninguém, o diálogo inter-religioso, deixou alguma vez de se assumir como hindu que era? Um Leonardo Boff, embora perseguido pela própria Igreja Católica, alguma vez renegou sua identidade religiosa? Seus livros não são lidos por pessoas de todos os credos e por pessoas sem credo?

Aliás, todas essas instituições e personalidades não dignificam suas religiões? Não é através de um Gandhi, que posso falar com o hinduísmo? Não é através de uma Madre Teresa, que posso ter empatia com os princípios cristãos?

Por que então, não podem os espíritas ter seus hospitais, suas escolas, suas universidades, seus projetos e suas personalidades de destaque?

O diálogo inter-religioso, o universalismo, a tolerância não se dá na morte das identidades de cada um, mas no respeito à vida saudável de todas as correntes!

Os argumentos apresentados pelos partidários do “tirar o nome espírita” seguem nas seguintes linhas:

1) O Espiritismo suscita preconceitos. Pois então devemos lutar contra os preconceitos, quanto mais nos escondermos, mais eles se perpetuarão. Se não há preconceitos contra budistas, católicos, protestantes, por que devemos aceitar que haja contra os espíritas e nos resignarmos a renunciar ao nosso direito de sermos o que somos?

2)  O nome “espírita” afasta financiadores. Em parte é verdade. E daí? Vamos trair nossas convicções ou disfarçá-las por causa de dinheiro? Em parte não é verdade, o que não se financia são projetos proselitistas, doutrinantes (dos quais também discordamos), mas instituições assumidamente espíritas podem fazer projetos universais. Além disso, temos que achar caminhos de autofinanciamento para as coisas em que acreditamos. Um exemplo positivo que pode ser citado nesse sentido é o que fez Dr. Tomás Novelino na Fundação Pestalozzi de Franca. Durante várias décadas, sustentou escolas espíritas com a renda de uma fábrica de sapatos. Outro exemplo atual, ainda em fase de implantação, é a excelente iniciativa da Capemi, em fazer um cartão de crédito para financiar projetos do bem…

3) Outro argumento usado é o de que afirmar-se espírita é criar separativismo, é afastar as pessoas, é suscitar críticas. Alguém por acaso criticou Madre Teresa de Calcutá por ser freira? Alguém desrespeita o Dalai Lama por ser budista? Alguém reclama por Hans Küng – o teólogo que trabalha pelo diálogo entre as religiões – ser católico? Todos militam por ideias e ações universais, a partir de seu lugar de identidade. É o que devemos fazer. A Pedagogia Espírita se propõe justamente a isso, a partir de uma visão espírita, trabalha pelo diálogo inter-religioso, a espiritualidade universal e o amor e a liberdade na educação – valores que todos podem aceitar. Mas a nossa perspectiva, a nossa justificativa, os nossos fundamentos são espíritas. É isso que deve ficar claro, porque mostra que o Espiritismo não é sectário (ou pelo menos não deveria ser) e que de suas raízes brotam transformações importantes para toda a sociedade.

4) O Espiritismo – também se argumenta – se aparecer ligado a uma pesquisa, a um projeto científico, pode desacreditar a neutralidade do cientista ou da instituição. Se o Espiritismo tiver esse caráter, que geralmente o movimento espírita lhe atribui, de religião sectária e de proselitismo, esse argumento é válido. Mas se resgatarmos as origens do Espiritismo, a metodologia de pesquisa inaugurada por Kardec, se enfim entendermos e praticarmos o Espiritismo como um novo paradigma do conhecimento – então podemos e devemos fazer uma ciência inspirada em Kardec.

Resumindo a questão – se a nossa visão do Espiritismo é, como queria Kardec, aberta, progressista, científica, filosófica, cultural, sem descartar seu aspecto religioso, então é nosso dever oferecer ao mundo esse caminho. Sem imposições, mas como alternativa respeitável e consistente, trabalhando lado a lado com pessoas do bem, de outras religiões, filosofias ou correntes políticas, podemos levantar a bandeira do Espiritismo, com dignidade, sem fanatismo; com abertura, sem perda de identidade.

Então, poderemos dar uma contribuição histórica importante, não para que todas as pessoas se tornem espíritas (não é esse o objetivo), mas para que projetos, ações, ideias, nascidas do Espiritismo influenciem o mundo de forma original e positiva.  Vamos assumir esse dever? Ou vamos passar à história como covardes e omissos, que participaram da conspiração do silêncio, que vem sendo feita, desde o século XIX em torno no nome de Kardec e das propostas revolucionárias do Espiritismo?

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